Gado leiteiro - A qualidade da silagem como determinante da produção e da qualidade do leite
Artigos: A qualidade da silagem como determinante da produção e da qualidade do leite
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Autor: Clóves Cabreira Jobim

Introdução

A principal fonte de volumoso conservado empregado na alimentação de vacas leiteiras é a silagem. Vários são os fatores que determinam esta situação, mas sem dúvida o fator custo/benefício, em relação a outros volumosos oferecidos no cocho (feno, capineira, ...), é o principal. É sabido que na atividade leiteira a redução dos custos de produção é extremamente importante e, em muitas situações, pode determinar a permanência ou não do produtor na atividade. Diante disso, é importante entender que a resposta da vaca a dieta a qual está submetida é que vai determinar o custo final da alimentação. A qualidade da silagem é resultado da espécie forrageira a ser ensilada e dos fatores de manejo da cultura e tecnologia na ensilagem. O produtor de leite tem que ter sempre presente o fato de que a produção e a qualidade do leite, no que se refere a composição química e microbiológica, tem relação direta com a qualidade da dieta fornecida ao animal. Portanto, se a silagem apresentar restrições qualitativas, a conseqüência imediata é a redução de consumo e conseqüente queda na produção de leite.

Vários são os fatores que determinam à qualidade da silagem e que merecem ser destacados nesse texto. Mas antes da abordagem de cada um desses fatores é importante destacar que “qualidade da silagem” é uma referência à capacidade da silagem de gerar uma resposta positiva no desempenho animal. Ou seja, qualidade da silagem é uma expressão utilizada como referência ao valor nutritivo da massa de forragem em interação com o consumo animal e com o potencial do animal. Assim, qualidade da silagem é uma variável que é medida pelo desempenho animal e não deve ser confundida com padrão de fermentação ou qualidade de conservação da forragem no silo. A silagem pode apresentar uma ótima qualidade de conservação mas não ser de alta qualidade em razão da composição química da forragem.

Assim sendo, destacamos a seguir os principais fatores físicos e químicos relacionados à qualidade de silagens e que afetam a produção e a qualidade do leite e, numa segunda oportunidade, abordaremos os fatores sanitários.

Fatores físicos

São fatores físicos na silagem aqueles relativos ao tamanho de partícula e a massa específica (kg de silagem/m3). O tamanho médio de partículas e a massa específica (ME) são fatores que afetam largamente a qualidade de conservação da silagem e, em conseqüência, o desempenho animal. O tamanho de partícula tem grande efeito sobre consumo animal, veja exemplo na Tabela 1. Já a ME determina, em grande parte, a composição química da silagem, especialmente no que se refere aos compostos produtos da fermentação no silo.

O efeito da distensão do rúmen na ingestão é bem conhecido. Esse efeito físico depende do tamanho de partícula e da taxa de desaparecimento da forragem no rúmen. O tamanho de partícula desempenha um papel chave na digestibilidade e na velocidade de passagem do alimento pelo trato digestório e, em conseqüência, na ingestão de matéria seca.


Fatores químicos

Os fatores químicos que afetam a produção e a qualidade do leite são relacionados a composição química da forragem ensilada, especialmente aqueles relacionados aos valores de digestibilidade e aqueles relativos a composição da silagem, incluindo valores de pH, ácidos orgânicos, etanol, aminas, produtos da proteólise, entre outros. Nesse contexto, é importante destacar as alterações que podem ocorrer na qualidade da forragem em função do processo de ensilagem.

Composição química da forragem

A qualidade do volumoso consumido por vacas em lactação é fator primordial na produção e qualidade do leite. Especialmente em sistemas de produção baseados em pastagens ou naqueles onde a suplementação é restrita. A qualidade da forragem determina, em parte, a quantidade ingerida e a disponibilidade de energia para lactação. Assim, qualquer sistema de produção leiteiro deve ter como base o uso de forragens de alta qualidade. A escolha da espécie forrageira para formação de pastagens ou uso conservada deve obrigatoriamente contemplar, além das condições de solo e clima da região, o potencial do rebanho.

A fibra representa a fração dos alimentos que mais interfere sobre o consumo de matéria seca, dependendo de sua concentração e digestibilidade. Por outro lado, a saúde dos ruminantes também depende diretamente de concentrações mínimas de fibra na ração que permitam manter a atividade de mastigação e motilidade do rúmen. A digestibilidade da fibra depende de características químicas e físicas. As principais características químicas relacionadas à digestibilidade da fibra são a composição e relação entre carboidratos estruturais e concentração de lignina.

Especialmente para as gramíneas o estádio de desenvolvimento é fator que mais contribui para o teor e qualidade da fibra. Isso determina que o produtor tenha atenção especial em definir o momento do corte das culturas a ser ensiladas.

Além disso, o produtor deve ter sempre presente que o uso de volumosos de alta qualidade implica na redução do uso de suplementos, com conseqüente redução dos custos com alimentação do rebanho.

Composição química da silagem

No processo de ensilagem as alterações na composição química da forragem podem ser altamente relevantes, influenciando o valor alimentício do volumoso. Por exemplo, em caso de fermentação secundária, poderá resultar em uma silagem com alto teor de produtos inibidores de consumo, como o álcool, amônia e ácido acético. Dessa forma, além das perdas no valor nutritivo (perdas de nutrientes) haverá grandes prejuízos em razão do baixo consumo animal, e em conseqüência queda na produção de leite.

Como no processo de ensilagem as principais perdas são de conteúdo celular, em situações inadequadas poderá haver aumento significativo da fração fibra da forragem. Sabe-se que dietas com alto teor de fibra não fornecem energia suficiente para altas produções de leite, comprometendo o potencial genético das vacas. Esta pode ser uma situação facilmente encontrada quando da administração de silagem de capim de baixa qualidade ou mesmo silagem de milho ou sorgo com baixo teor de grãos. Dessa forma, o balanceamento da ração com dados de tabela e não reais (silagem disponível) pode comprometer o desempenho de vacas de alta produção. No caso de silagens com alta fração fibrosa a densidade energética poderia ser aumentada com silagem de grãos de milho, elevando os níveis de carboidratos não fibrosos (CNF). Por outro lado, deve-se tomar cuidado pois a fração fibra do concentrado é pouco efetiva em manter a função ruminal.

É sabido que o processo de fermentação na ensilagem altera a composição química da forragem. Sendo assim, possíveis anormalidades na composição química do leite pode ser atribuído a qualidade do volumoso fornecido como silagem. A qualidade da forragem ingerida afeta não só a produção como a composição química do leite. Por exemplo, quando a dieta possui alto teor de concentrado favorece a produção de ácido propiônico no rúmen, que é o substrato para a síntese de lactose do leite. A proteína do leite é sintetizada a partir dos aminoácidos provenientes das proteínas digeridas no intestino delgado. Esses aminoácidos podem também ser utilizados pelo fígado para síntese de glicose. Isso ocorre quando há falta de propionato, situação normalmente observada no início da lactação.

Por outro lado, a gordura do leite é composta por ácidos graxos de cadeia longa e curta. Os ácidos graxos de cadeia longa são provenientes  diretamente da alimentação ou das reservas de gordura mobilizadas do organismo, enquanto que os ácidos graxos de cadeia curta são oriundos dos produtos da fermentação ruminal. Portanto, a gordura do leite é em parte sintetizada pela glândula mamária a partir dos ácidos acético e butírico, sendo esses ácidos graxos  produzidos no rúmen, a partir da fermentação da dieta.

Considerações finais

Diante desse cenário é importante destacar que o manejo de silagens para alimentação de vacas leiteiras deve priorizar a qualidade no sentido amplo do termo. Em outras palavras, silagem de alta qualidade é aquela que determina altas produções, sem prejuízos a saúde do animal e a qualidade do leite. Conforme abordagens no texto existem inúmeras variáveis relacionadas à qualidade de silagens que determinam o desempenho de vacas em lactação. Cabe ao produtor aplicar procedimentos tecnológicos, em todas as etapas de confecção e utilização de silagens, para eficiência do sistema de produção de leite.

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