Autor:
Alberto Chambela Neto e Bruno Borges Deminicis
RESUMO |
Fonte: Divulgação |
As
vacas que entram no período de transição – três semanas antes até três
semanas depois do parto, estão numa fase crítica. As mudanças que
ocorrem durante este período as impõem enormes
demandas fisiológicas.
As práticas de alimentação e manejo usadas nas últimas semanas de
gestação afetam profundamente a incidência de doenças no início do
período de lactação.
Desta forma, neste artigo iremos discorrer
alguns dos pontos importantes da alimentação e manejo da vaca em
transição e início da lactação como forma de melhor entender e prevenir a
Cetose.
INTRODUÇÃOA pecuária leiteira no Brasil é
caracterizada pela heterogeneidade entre os produtores que se
classificam desde especializados, que produzem uma grande quantidade de
leite, a sazonais, que fazem da pecuária leiteira uma fonte de renda
complementar a agricultura ou à pecuária de corte.
As inúmeras
adversidades encontradas por esses produtores têm feito com que seu
efetivo diminua ao longo dos anos, uma vez que a atividade leiteira, em
1996, estava presente em 37,2% do total de estabelecimentos
agropecuários brasileiros e em 2006 a atividade reduziu para 25,8%
(IBGE, 2006). Em contra partida, a produção aumentou 48% nos últimos 10
anos e este aumento produtivo pode ser atribuído às inovações na
produção, com tecnologias, genética e um manejo mais apurado (Barbosa,
2007).
As inovações observadas no que se refere ao manejo
alimentar da vaca leiteira visa atender as exigências nutricionais dos
diferentes estádios de produção, prevenindo a escassez ou o excesso de
nutrientes, a fim de evitar, principalmente, perdas econômicas
decorrentes da queda de produção. Entretanto, de modo geral, a falta de
conhecimento conduz a erros de manejo nutricional em um período crítico
conhecido como período de transição.
O período de transição da
vaca de leite é o período mais complexo na vida produtiva do animal. O
mesmo é compreendido entre três semanas antes da parição até três
semanas após o parto, e é caracterizado por marcantes mudanças no perfil
endócrino do animal que são muito mais expressivos do que qualquer
outro durante a fase da lactação e gestação, onde há principalmente uma
modificação na ingestão de alimentos, quanto ao volume e tipo de dieta, e
quando a demanda por nutrientes está elevada.
Neste período de
transição as vacas leiteiras apresentam uma fase de imunossupressão
associada a estas mudanças abruptas da dieta. Além dos transtornos
metabólico, endócrino e imunológico podem-se incluir os fatores
relacionados ao estresse do ambiente em que as vacas são submetidas
entre o período seco e a lactação. Quando estes efeitos são combinados
não é de surpreender que o período de maior risco para o surgimento de
doenças relacionadas à produção seja imediatamente após o parto. Assim, o
objetivo desta revisão foi abordar as desordens metabólicacas que levam
as vacas de elevada produção a desenvolverem quadros de cetose.
ANÁLISEA
cetose é uma desordem metabólica associada ao balanço energético
negativo (BEN) e à carência de carboidratos precursores de glicose,
típicas do periparto de vacas de elevada
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Fonte: AgroCim |
produção
leiteira. A principal predisposição a estes distúrbios é devida a
extrema demanda de energia com maior mobilização de gordura corpórea e a
redução na capacidade de ingestão de matéria seca, o que afeta a
produção de leite e a reprodução (Duffield et al., 1999).
Deste
modo, no início do período seco os animais devem ser alimentados com
pastagem de boa qualidade, feno, silagem e ou a combinação destes. Isto
porque, além das características intrínsecas do período de transição, os
últimos dias de gestação coincidem com a formação do colostro,
crescimento fetal, e das membranas fetais, os quais aumentam as
exigências de glicose, aminoácidos, ácidos graxos, minerais e vitaminas
pelo tecido mamário (Grummer, 1995; Bertics et al., 1992) e cria-se uma
elevação da pressão interna nos órgãos digestivos, diminuindo desta
forma o espaço ocupado pelos alimentos.
Este fato, associado com
a grande variação hormonal no período pré-parto, ou seja, um aumento
nas concentrações sangüíneas de estrógeno e corticoídes e uma queda nas
concentrações de progesterona (Chew et al., 1979), os animais reduzem o
consumo de matéria seca em até 30%, o que predispõe o BEN, com isso
ocorre aumento do catabolismo de gordura elevando as concentrações de
ácidos graxos não esterificados em 2 ou 3 vezes na circulação (Grum et
al., 1996), estes por sua vez, serão posteriormente acumulados no fígado
o que pode causar problemas metabólicos e diminuir a produção leiteira.
Uma das medidas básicas a ser tomada é a elevação da densidade
energética da dieta no final do período seco (aproximadamente 21 dias
antes do parto), aumentando conseqüentemente a relação
concentrado:volumoso, compensando desta forma a redução no consumo dos
alimentos, bem como o monitoramento do Escore de Condição Corporal
(ECC).
O ECC tem sido uma ferramenta de manejo nutricional
padrão usado pelos profissionais da área de bovinocultura para
quantificar as reservas de energia das vacas. É um método subjetivo de
se avaliar as reservas energéticas das vacas, utilizando observação
visual e palpação de áreas específicas de tecido adiposo subcutâneo. O
método, embora subjetivo, é suficientemente sensível para identificar
individualmente as vacas que, não apresentam atividade luteal cíclica
ovariana e que necessitam de manejo alimentar especial e tem sido
recomendada, na prática, como meio de se avaliar o grau relativo do
balanço negativo (Wrigth e Russel, 1984).
A vaca obesa possui
depósitos de gordura intra-abdominais que limitam fisicamente sua
capacidade de consumir alimento após o parto, quando a síntese láctea
cria uma demanda forte de glicose e aminoácidos. Uma escassez de
precursores metabólicos para produção láctea (particularmente de
glicose) leva a uma mobilização de gordura. O glicerol é usado para
produzir glicose e os ácidos graxos livres são convertidos em corpos
cetônicos (acetona, acetoacetato, β-hidroxibutirato, na Figura 1). A
mobilização de gordura excede a capacidade dos hepatócitos em realizar
essas conversões, levando a um acúmulo de gordura no fígado. Embora,
isso seja considerado normal em certo grau, na cetose severa, o
parênquima hepático é dominado por um acúmulo lipídico, o que reduz a
capacidade de conversões metabólicas (Guard, 2000).
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Fonte: Lehninger, 2002. |
Figura 1: Síntese de corpos cetônicos e sua exportação pelo fígado.
Quando
se aproxima o parto, ocorre uma redução na lipogênese e na
esterificação e um aumento simultâneo na lípase hormônio sensível. O
processo é iniciado pela prolactina e precede o início da lactação. A
epinefrina e a noraepinefrina são estimuladores potentes dessa
mobilização lipídica e ocorre diminuição da secreção de insulina.
A
vaca em condições de equilíbrio energético reesterifica os ácidos
graxos não-esterificados (NEFA) séricos no fígado e os secretam como
lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL). Quando ocorrem déficits
energéticos e ocorre produção excessiva de NEFA além da capacidade
hepática para reesterificação, eles são oxidados em corpos cetônicos
(Guard, 2000).
A produção de corpos cetônicos é altamente
regulada e tida como última etapa no metabolismo energético de lipídios.
Três são os pontos de controle da síntese de corpos cetônicos: lipólise
e influxo de ácidos graxos livres na corrente sanguínea; entrada de
ácidos graxos na forma de acil-CoA na mitocôndria; e atividade da enzima
3-hidroxi-3metilglutaril CoA sintetase dentro da mitocôndria (Santos,
2006).
Os corpos cetônicos são formados no fígado e transportados
pelo sangue até outros tecidos onde funcionam como moléculas
combustíveis, sendo oxidados até acetil-CoA e depois “entram” no ciclo
do acido cítrico. Sua superprodução pode levar à cetose e à acidose
(Lehninger, 2002).
A cetose deve ser considerada um problema
quando a produção e absorção de corpos cetônicos chega a exceder seu
consumo pelo ruminante como fonte de energia, o que resultará em
elevados níveis sanguíneos de corpos cetônicos, de NEFA e
desenvolvimento de hipoglicemia (Fleming, 1993).
Clinicamente, os
sintomas são a diminuição gradual do consumo de alimentos, a redução
gradual da lactação, a perda evidente de peso, os movimentos ruminais
tornam-se lentos, cheiro de acetona no hálito, apatia e prostração
(Quiroz-Rocha et al., 2000).
CONCLUSÃOO tratamento da
cetose se destina a restauração do metabolismo energético normal para
produção leiteira, contudo, sugere-se que o adequado manejo nutricional
no período de transição, visando prevenir a cetose é a melhor
alternativa a ser seguida.
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Alberto Chambela Neto (1) e Bruno Borges Deminicis (2)
(1) - Zootecnista, MSc Produção Animal, Professor IFES, Campus Santa Tertesa
(2) - Zootecnista, DSc Produção Vegetal, Professor Adjunto, CCA/DZ - UFES