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IEPEC
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O parto é um evento de suma importância em rebanhos bovinos leiteiros, considerando que representa o início de uma nova lactação e o nascimento de mais uma cria. Para que essa etapa se realize com sucesso, o manejo das vacas nesse momento é essencial.
Para conversar conosco sobre o assunto, convidamos o professor Julio Viégas da Universidade Federal de Santa Maria.
IEPEC - Os cuidados que o pecuarista deve ter com o momento do parto, começam com o acasalamento. Dali pra frente o que ele deve ter como cuidado?
Julio Viégas: Acredito que o aspecto principal que o produtor deve considerar é quanto à condição corporal das vacas. Nesse sentido, eu sempre recomendo observar uma regra simples, mas fundamental: nos primeiros 6 a 7 meses de gestação, nós temos que observar que para vacas que estejam muito magras, ou seja, em uma condição corporal abaixo de 3, considerando o escore de condição corporal EM de 1 a 5, essas vacas deveriam estar ganhando peso. Ou seja, vacas magras têm que ganhar peso. Vacas gordas, ou seja, em uma condição corporal superior a 4, devem perder peso. Vacas em boas condições, ou seja, em uma condição corporal de 3 a 4, especificando de 3.25 a 3.75, esses animais devem manter o seu peso. Para obter estes resultados a dieta que o animal está recebendo deve ser adequada na sua densidade energética para que ocorra a modulação da condição corporal. Posterior a isso, ou seja, nos últimos 2 meses de gestação, deve-se observar que independente da condição corporal que a vaca esteja, todos os animais devem estar ganhando peso. Esse ganho diário deve girar entre 600 (animais de pequeno porte) a 800 g (animais de grande porte).
No caso dos últimos dois meses de gestação, esse ganho de peso representa o crescimento do feto. No final da gestação, no oitavo ou no nono mês, esse feto pode apresentar 60% de desenvolvimento, o que significa que praticamente metade do desenvolvimento do feto ocorre nesse período. Por isso, deve ser observado o ganho de peso da vaca, como dito anteriormente, para não comprometer o desenvolvimento desse feto.
Mais especificamente, quando a vaca entra no período seco, nós temos que dar condições ambientais, sanitárias e nutricionais para que a vaca possa produzir leite, a partir do parto, o mais próximo possível ao seu potencial genético. Lembro que animais no período seco não estão produzindo leite, então a dieta tem que ser a mais econômica possível. Nesse sentido vamos trabalhar com alimentos de boa qualidade, tanto no pastejo direto ou na oferta do volumoso no cocho. Preferencialmente devemos utilizar fenos de gramíneas, mas na falta de feno de boa qualidade a silagem pode ser utilizada.
Quando os animais entram no período de transição, 3 semanas antes do parto, essas vacas devem voltar a receber o alimento concentrado, pois, como vimos, neste momento se concentra grande parte do desenvolvimento do feto. Vacas, normalmente, nesse período apresentam redução no consumo voluntário do alimento, isto é devido ao crescimento do feto que acaba por restringir a capacidade de enchimento do rúmen. Associado a isto, esse maior crescimento fetal determina uma maior demanda de energia e nutriente, no entanto a vaca está consumindo menos. Desta maneira é imprescindível fazer o ajuste da densidade energética da dieta. A redução no consumo de matéria seca pode ser da ordem de até 30%, como recomendação o uso do alimento concentrado associado ao aumento de 20% na energia e 15% na proteína é fundamental. Esta mudança alimentar deve ocorrer nas últimas 3 semanas de gestação em relação a data provável do parto, evitando surpresas ao produtor com partos mais precoces.
Eu acredito que este seria o principal enfoque que devemos ter no período de gestação, lembrando que, uma série de aditivos alimentares podem e devem ser utilizados neste período como forma de prevenir distúrbios metabólicos e problemas reprodutivos. Alguns destes aditivos que podemos lançar mão, são os sais aniônicos, o precursores gluconeogênicos, niacina, Vitamina E, selênio, zinco-etionina, cobre e tamponantes.
IEPEC - Uma questão importante é o local da maternidade, onde ele deve ser localizado? Qual local da propriedade rural é o mais adequado para o parto das vacas?
JV: Essa questão é de bastante relevância principalmente porque nós temos que considerar que, vacas que se aproximam e entram em trabalho de parto passam por um estresse grande e depois tem que iniciar a lactação, o que demanda uma grande quantidade de energia.
Então elas passam por um processo de mudanças hormonais e metabólicas que acarretam na depressão do sistema imune e por isso elas são mais propensas a infecções no inicio da lactação. Dessa maneira, deve-se fornecer um ambiente o mais confortável possível para esses animais. Eu gosto de salientar aos produtores é que nós devemos estabelecer dentro da propriedade um piquete maternidade ou para aqueles produtores que trabalham com os animais em confinamento, uma baia maternidade.
No caso do piquete maternidade, a sua diferença em relação aos demais piquetes é que ele deve se localizar próximo a sede da propriedade, para que o produtor ou os empregados possam realizar o acompanhamento diário, e vigília constante, principalmente a partir dos primeiros sinais de que o parto se aproxima, e que a vaca tão nitidamente comunica ao tratador. A proximidade da sede facilita a vigília noturna. Todo e qualquer piquete, independente de ser o piquete maternidade, deve ter 3 condições básicas: disponibilidade de sombra suficiente para todas as vacas, água fresca e de boa qualidade e boa disponibilidade de volumoso, o qual deve ser também de boa qualidade, independente de ser fornecido no cocho. Outra característica é que esse piquete não possua grandes dimensões, que facilite a vigília e que permita o exercício dos animais. Ele deve suportar o número médio de animais que se encontram no período final de gestação ao longo do ano. Então a minha recomendação do piquete maternidade é que ele venha a comportar todas as vacas que entram no período de transação. Isto facilita o manejo já que inevitavelmente estas vacas passam a receber o alimento concentrado, diferente das demais vacas do período seco, que durante as primeiras cinco semanas do mesmo recebem somente o volumoso. Todo o manejo do rebanho fica mais fácil ao criarmos esta categoria de vacas no período de transição e passarmos a fornecer o concentrado no cocho próximo a sede, ou seja, no piquete maternidade.
Retomando, quanto ao piquete maternidade os principais pontos a serem observados são: boa disponibilidade e boa quantidade de alimento volumoso; pastagem de boa qualidade; disponibilidade de sombra; a água deve estar sempre disponível em boa quantidade e fresca, além disto, o piquete deve ser próximo à sede da propriedade e possuir dimensões reduzidas, mas o suficiente para que o animal se exercite e possa encontrar o seu alimento em caso de pastejo direto.
IEPEC - Outro fator quanto à maternidade, é que é recomendável a mudança desse local dentro da propriedade com o tempo. Porque essa ação?
JV: A mudança do local é um aspecto importante porque ao usar sempre o mesmo piquete para a maternidade nós podemos estar criando uma circulação favorável aos patógenos e parasitas dentro da propriedade e reforçando a formação de reservatórios destes.
Por outro lado devemos prever que a permanência da vaca por pelo menos 3 semanas dentro de um mesmo ambiente é importante para que ela venha a criar anticorpos específicos para os patógenos que estão presentes e através do colostro transferir esses anticorpos para o bezerro. Neste sentido, o bezerro após o nascimento deveria ser mantido em local semelhante ao que a vaca estava, caso contrário estaremos apresentando uma situação de desafio para o sistema imune do bezerro ao qual ele não será competente. Deve ser observado que a imunidade ativa, aquela produzida pelo próprio bezerro, passará a ser competente no combate aos patógenos a partir da sexta semana de idade.
Isto remete a outro aspecto relevante, que eu tenho tentado reforçar junto aos alunos, técnicos e produtores, que desaleitamentos com idades inferiores a oito semanas podem ser um total desastre para a propriedade. No intuito de economizar o leite para vender à usina o produtor muitas vezes acaba colocando tudo a perder com o aumento da mortalidade das bezerras. Neste sentido tenho recomendado não somente o aumento no tempo de aleitamento, além das oito semanas, bem como, o aumento na quantidade de leite fornecida para as terneiras, além dos quatro litros diários, equivocadamente estabelecidos pela literatura.
De qualquer maneira, as mudanças de ambiente, ou seja, o rodízio das áreas alocadas para a maternidade acaba sendo importante na tentativa de quebrar o ciclo de patógenos e parasitas pré-existentes.