Fonte:
Embrapa Gado de Leite
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Fonte: Portal do Agronegócio |
Entrevista realizada pela Embrapa Gado de Leite com o seu chefe geral,
Duarte Vilela.
1. Como se deu a evolução da tecnologia para o mercado lácteo nos últimos dez anos?Duarte Vilela: Em termos de ciência, uma década é um espaço de tempo muito curto. Eu diria que nos últimos trinta anos muita coisa mudou na pecuária de leite nacional. A Embrapa Gado de Leite, universidades, empresas estaduais de pesquisa... enfim, as instituições que produzem tecnologia para o setor, foram capazes de desenvolver produtos e serviços que podem quadruplicar a produtividade de leite no país. E a pesquisa agropecuária tem demonstrado fôlego para aumentar ainda mais essa capacidade.
2. De que forma?DV: No que diz respeito ao melhoramento animal, por exemplo: os estudos em genética deram um grande salto na última década. Em 2009, um consórcio internacional de cientistas, que contou com a participação de pesquisadores da Embrapa, realizou o sequenciamento do genoma bovino. Estes estudos levaram mais de cinco anos para serem concluídos. O bovino objeto de estudo foi uma vaca da raça Hereford, um animal da subespécie Bos taurus taurus, isto é, uma raça europeia. Agora, em muito menos tempo, a Embrapa Gado de Leite em parceria com outras instituições está realizando o sequenciamento de animais da raça zebuína leiteiras, mais especificamente, bovinos Gir e Guzerá. Já temos 20% do código genético sequenciado. As raças zebuínas (Bos taurus indicus) têm grande importância para o Brasil e países de clima tropical. São animais rústicos e se adequam melhor às regiões de temperatura mais elevada. Este estudo possibilitará o desenvolvimento de ferramentas específicas para a seleção de animais zebuínos e seus cruzamentos.
3. No que o estudo do genoma poderá contribuir para o melhoramento dos bovinos?
DV: O método clássico de melhoramento se fundamenta apenas nas características fenotípicas, ou seja, aquilo que é possível mensurar: produção de leite e carne, resistência a endo e ectoparasitas, estresse térmico etc., além do pedigree dos animais. No estudo do genoma, além das características fenotípicas, é considerado o genótipo. Ou seja, os gens responsáveis pelas características de interesse econômico dos bovinos. O estudo do genoma potencializa o melhoramento genético, reduzindo o tempo para que se obtenham os resultados esperados, quando comparado ao método profissional.
4. Em sua opinião, quais são as tecnologias que mais agregarão valor à cadeia produtiva do leite?DV: A Embrapa Gado de Leite pesquisa várias tecnologias cujo objetivo é reduzir custos de produção, agregando valor à atividade. Com relação à sanidade, por exemplo, queremos atacar a mastite, que provoca grandes prejuízos para os produtores, por meio da nanotecnologia. Nossos pesquisadores trabalham na criação de nanocarreadores cujo objetivo é levar o antibiótico para dentro das células de defesa da glândula mamária. Isto poderá ajudar no combate à mastite causada por Staphylococcus aureus, que apresenta maior dificuldade de controle por ser mais resistente ao mecanismo de defesa das vacas. Tecnologias que também podem agregar valor à atividade são aquelas voltadas para a produção de alimentos funcionais. Neste setor, estamos trabalhando no enriquecimento do leite por meio CLA (Ácido Linoléico Conjugado). É uma tecnologia relativamente simples, de grande agregação de valor. Ela consiste na adição de óleo vegetal à dieta das vacas. O resultado é um leite com maior teor de ácidos graxos essenciais, benéficos à saúde humana.
5. Em sua opinião, há o investimento necessário, por parte do governo, para a pesquisa de inovações tecnológicas que possam auxiliar o mercado lácteo?DV: Nos dois últimos anos, os recursos do PAC para a Embrapa forma generosos. Foram investidos cerca de R$ 1 bilhão nas unidades da Embrapa e nas empresas estaduais de pesquisa. Mas o dinheiro para a pesquisa nunca é o suficiente. Por exemplo: para colocarmos o complexo multiuso em pleno funcionamento, precisaremos de cerca R$ 8 milhões. No entanto, o importante é aplicar bem os recursos existentes.
6. Em comparação ao mercado internacional, como a tecnologia brasileira auxilia o mercado lácteo em sua evolução?DV: O Brasil possui a pesquisa agropecuária mais robusta do mundo tropical. A Embrapa é uma referência internacional. A Embrapa Gado de Leite possui pesquisadores na Europa e na África. Desenvolvemos pesquisas em parceria com diversas instituições mundiais. Somos o sexto maior produtor de leite do mundo. Temos a melhor genética bovina para as condições tropicais. Nosso papel não é de coadjuvante, ocupamos uma importante posição no mundo.
6. O mercado lácteo evoluiu nos últimos anos e mesmo com a economia se recuperando há bastante otimismo para 2011. Como as tecnologias implantadas pela Embrapa auxiliam na qualidade do produto lácteo comercializado?DV: Este otimismo talvez se restrinja ao Brasil, que consegue superar a crise internacional. O mercado interno está vigoroso, mas as perspectivas internacionais para 2011 não são muito animadoras. Até 2008 exportávamos produtos lácteos. Nos últimos dois anos, nossa balança comercial tem sido negativa. De janeiro a outubro de 2010 exportamos 132,6 milhões de dólares e importamos 233,3 milhões de dólares, um saldo negativo de mais de 100 milhões. A crise cambial tornou o Real valorizado frente ao Dólar, o que encarece nossos produtos. Em termos de preço, o leite brasileiro se compara ao leite europeu e norte americano e é mais caro do que aquele produzido na Nova Zelândia e Argentina (países exportadores do produto). Mas não podemos perder o foco no mercado externo. Embrapa Gado de Leite desenvolve ações para garantir que o leite brasileiro se equipare em qualidade ao dos países de primeiro mundo e desenvolve alternativas para reduzir o custo de produção, único caminho de curto prazo para deixar nosso produto mais competitivo no mercado externo. Conquistar o mercado internacional é uma meta que não devemos deixar de perseguir.